Por Jeferson Bussula Pinheiro

Proposta
A transformação digital da administração pública exige investimentos robustos em infraestrutura de tecnologia da informação. Porém, em muitas cidades brasileiras, essa realidade ainda caminha no ritmo de um disquete formatando… bem devagar.
A cidade, capital do Estado em questão, deu um importante passo rumo à modernização com a implantação de um projeto de alta disponibilidade para seu datacenter. A iniciativa, conduzida pelo órgão responsável pela tecnologia foi motivada por um Estudo Técnico Preliminar realizado em 2019 que, sinceramente, parecia mais um episódio de uma série de suspense – com direito a piso elevado descolando, ar-condicionado veterano de guerra e nobreak com mais queda do que time rebaixado.
O levantamento revelou um cenário crítico: refrigeradores de ar com mais de 20 anos gritando por aposentadoria, ausência de proteção contra incêndio, infraestrutura elétrica com mais emendas do que novela mexicana e nada de contratos de manutenção. Resultado? Risco iminente para aproximadamente 90% dos dados da Prefeitura Municipal.
Mas como bons brasileiros (e profissionais de TI resilientes), arregaçamos as mangas. Iniciamos um processo técnico e administrativo criterioso, que envolveu desde o Termo de Abertura do Processo até análises jurídicas, pregão eletrônico, visitas técnicas e… mais planilhas do que gostaríamos de admitir.
A proposta aprovada incluiu uma solução robusta com sistema elétrico redundante, climatização automatizada, instalação de abrigo outdoor e automação para resposta imediata a falhas – tudo pensado para manter o Datacenter funcionando firme e forte, mesmo se o mundo lá fora estiver sem energia e com 40 °C na sombra.
O Grande Move: e não foi no xadrez
Depois da homologação, da assinatura do contrato e do início das instalações, chegou o momento mais temido (e, para alguns, empolgante): o MOVE do datacenter. Sim, a transferência dos ativos críticos para o novo ambiente. Para quem não está familiarizado, o move é o equivalente em TI a fazer mudança de casa levando geladeira, cama, cachorro e Wi-Fi funcionando, sem deixar cair nada – e sem perder os dados no caminho.
Aqui, o bom humor (e café) foram indispensáveis. Teve quem jurasse que não ia dar certo, que um switch ia fugir da caixa ou que o servidor ia travar de medo. Mas o que teve mesmo foi muito planejamento – e planejamento com planilha colorida, cronograma detalhado e, claro, um plano B, C e D na manga.
Mais importante ainda, tivemos uma equipe de infraestrutura unida e comprometida. Foi bonito de ver: gente de diferentes setores trabalhando como um só. Uma verdadeira orquestra digital afinada, com direito a piadinhas para aliviar a tensão, e um bom som tocando, como: “Se der pau, a culpa é do estagiário… Ah, pera, somos todos estagiários da vida!”. E assim seguimos, sempre com o mantra: “Se está funcionando, não mexe… mas como não estava, bora mover!”.
E o melhor: a equipe comprou a ideia desde o começo. Quando se acredita no propósito, até levantar um rack às 3h da manhã parece parte de uma missão nobre (e é!).
Bastidores do Move: Entre Racks, Risadas e Resistência
Se o projeto do novo datacenter da capital já parecia uma saga digna de documentário, o moving – a famosa mudança dos equipamentos para o novo ambiente – foi o episódio especial que misturou tecnologia, emoção, pizza, pandemia e até torcida contra. Sim, teve de tudo. E ainda assim… deu certo!
Começou com planejamento de primeira. Planilhas, cronogramas, reuniões, simulações, testes… parecia lançamento de foguete da NASA. Mas como toda boa missão, sempre tem aquele momento em que o inesperado dá as caras. E não falhou.
No meio da mudança, eis que surge uma voz de comando não muito ortodoxa:
— “Deus passa na frente!” – gritou um amigo, meio em tom de piada, tentando motivar o hardware a inicializar.
E não é que funcionou? Pode até não estar no manual da fabricante, mas quem estava lá viu: teve servidor que só ligou depois do incentivo verbal. A ciência não explica, mas o companheirismo explica.
E por falar em companheirismo, teve de sobra. A equipe virou família (daquelas que discute e ri logo depois). Tinha gente segurando cabo, outros alinhando rack, uns conferindo IPs, e todos com a mesma vontade: fazer dar certo. Teve até música tocando, para aliviar a tensão – e, convenhamos, nada como uma trilha sonora para um bom clímax de projeto.
A pandemia de coronavírus foi o tempero picante que ninguém queria, mas estava lá. Máscaras, álcool em gel e distanciamento social eram parte da logística. Cada entrada na sala técnica parecia uma cena de filme apocalíptico: testes de Covid antes e depois, medição de temperatura e a clássica pergunta: “Tossiu ou é só alergia?”. Mesmo assim, ninguém recuou. O time seguiu unido, forte e, acima de tudo, consciente.
E, quando tudo finalmente estava nos eixos, com os sistemas no ar, o ambiente refrigerado como manda o figurino e os alertas do monitoramento zerados… veio a recompensa: — PIZZA…CERVA!
Foram muitas caixas, vários sabores e uma certeza: valeu a pena. Nunca uma fatia de calabresa teve tanto gosto de missão cumprida.
Claro que não foi um mar de rosas. Teve torcida contra, sim, daqueles que só acreditam depois que está funcionando (e ainda desconfiam). Teve problema, sim – de fonte queimada a senha que ninguém lembrava (quem nunca?). Mas teve algo muito maior: SUPERAÇÃO.
Cada desafio vencido foi um tijolo na construção de um legado de inovação. E sim, teve inovação, e não só nos equipamentos. Teve inovação na forma de trabalhar, de se unir, de buscar soluções criativas com recursos limitados e um objetivo em comum: fazer da infraestrutura de TI algo digno da cidade, dos servidores e da população.
No fim, a lição que ficou foi clara: com planejamento, parceria, vontade, coragem (e, claro, pizza), dá pra mover um datacenter. E dá pra mover muito mais.
E a gente moveu. Amém.
Apoio que faz diferença
Nada disso teria sido possível sem o forte apoio da alta gestão municipal, que não só entendeu a importância do projeto, como também bancou as decisões técnicas com confiança. O Presidente, e o Adjunto, junto da equipe de infraestrutura de rede da prefeitura, esteve presente do início ao fim – apoiando, acompanhando, sugerindo e, principalmente, confiando na equipe técnica. Teve gente que não colocou fé se iria dar certo… A gente até desconfiou por um momento: “Será que estão confiando demais?”, mas seguimos confiantes também.
A entrega do novo datacenter, em julho de 2020, representou mais que a instalação de equipamentos modernos. Representou uma virada de chave cultural: o reconhecimento de que infraestrutura de TI não é apenas ‘custo escondido’, mas sim a espinha dorsal de uma administração eficiente, segura e conectada.
Conclusão
A cidade mostrou que é possível fazer um projeto de alta disponibilidade acontecer com seriedade, planejamento, trabalho em equipe e… bom humor, sempre que possível. O que antes era visto como “invisível” – fios, ar-condicionado, nobreaks e switches – passou a ser valorizado como estratégico.
Esse case serve de inspiração para outras prefeituras que ainda vivem sob o fantasma da TI sucateada. Porque se tem uma coisa que a gente aprendeu é: pode faltar cabo, mas não pode faltar coragem para transformar.